segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sexo Invisível


Sexo Invisível

Personagem 01 – Cruzo a avenida da diversidade, como nunca havia cruzado antes. O barulho dos automóveis não me incomoda... Aborrece-me os edifícios, pedras fundamentadas, como o pensamento dos homens que me cercam. Sábado... Final de semana comum para um jovem solitário, como eu! Além do calor seco, um frio interior... Rumo ao sonho dançante de toda a eternidade.

Personagem 02 – Mais uma vez... Embalado pelo frenesi da noite paulistana. As luzes da boate me fazem refletir: Permanecerei no ambiente até o amanhecer? Um copo de cerveja. Fecho os olhos e imagino o desdenhar da sociedade sobre mim.

Personagem 01 – Vagamente sinto o perfume da impureza. Não sou o que sou... Sou aquilo que se torna... Pequeno, grande... Gordo, magro... Normal como todos os que caminham lá fora. Já imaginou o homem sem sua virilidade? E a mulher sem sua doce feminilidade? Separo-me da noite agitada, para sentir a música doce, tão longa... Que me traz o desejo de ter alguém para amar... Alguém que me ame!

Personagem 02 – Não é anormal ser tocado por alguém como, e ao mesmo tempo tão diferente de você! Alguma pessoa que se deita e permanece ao seu lado, até o raiar do dia...

Personagem 01 – Ao acordar... Sucumbe em mim um chamado para ir adiante. A dor que sentia a noite passada, não pode ser maior que a esperança...

Personagem 02 – Possível é educar alguém... Faria o melhor possível! Consigo imaginar um domingo, como este, ensolarado no Parque do Ibirapuera... Levando o pequeno no colo... Colocando-o na bicicleta... Sorrindo ao imaginar seu primeiro tombo... O delírio ao experimentar um gostoso algodão-doce. Tenho o direito...

Personagem 01 – Que mal tem nisso? Nenhum, estúpido racional! Quem disse que não tenho o direito? Suas escrituras? Homens de pouca fé, que pensam conhecer Deus... Mas, no fundo, não viveram o divino como vivi... Ou vivo! Às vezes, por ironia do destino, penso na escravidão... A vivo momentaneamente... Parece nunca acabar! Não porque acredito estar preso a uma crença que me julga... Mas, sim... Por estar fora dela! Talvez seria mais feliz se você igual a você! Talvez... Sou feliz como sou!

Personagem 02 – Sou feliz como sou! E ninguém tem o direito de me julgar, só porque sou diferente! Deus me ama... Não me julga! E pode ter certeza... Sou mais feliz do que você imagina... Sabe porque?

Personagem 01 – Porque sou um misto de virilidade e feminilidade! Sou homem, tampouco macho, e nem se quer mulher! Deus me julga por isso? Não... Ele me ama! Sou real... Sou verdadeiro! Talvez as rédeas do meu camelo estavam esticadas demais e, minha carruagem, cheia demais... No entanto, o sol que me levava até o céu do leste era bem mais luminoso que o seu... Deus me vê! Eu sinto Deus!

Personagem 02 – Ainda viverei meu desejo... Assim o chamo, o puxo, o quero... Lar doce lar! Pode ser em uma tenda, bem longe do mar... Talvez, nem perto da montanha... Somente um lar para ser feliz, ao lado de quem Deus quis!

Personagem 01 – Ah... Sou um ser que na Terra conta muitos dias... Sou poeta, músico, figurante da minha própria arte! Sou negro, branco. Fraco, forte. Gordo, magro. Baixo, alto. Sou homem... Sou gay!

Personagem 02 – Sou alegria de muitos, tristeza de poucos... Vida do amor... Vida do medo! Eu chamo, puxo, quero... Deparo-me novamente com o farol vermelho. Observe... Mais alguns instantes e, o verde, iluminará o asfalto! Acima, poderosos edifícios... Rochedos!

Personagem 01 – Eu chamo, puxo... Eu quero!